Monster não poderia começar de outro jeito se não com o depoimento de Aileen Wuornos (Charlize Theron) sobre sua infância, seus sonhos, que tão cedo percebeu serem proibidos e guardou para si. O sonho de ser famosa, de ser reconhecida, de ser alguém, de ser “descoberta numa lanchonete” como Marilyn Monroe, por que não?
Aos 13 anos, depois do pai ter se suicidado, Lee se torna prostituta e é rejeitada pelos irmãos. Nunca se apaixonou por ninguém, nunca soube o que é ser amada e está prestes a se matar quando conhece Selby (Christina Ricci), uma lésbica que sofre o preconceito dos pais, que a mandam passar uns tempos com uma tia que mora na Flórida, a fim de curá-la de sua “doença”.
Inesperadamente, Lee se deixa atrair pela moça e elas acabam se apaixonando. No entanto, o assassinato de um de seus clientes, que a violenta, muda tudo e Lee não é mais capaz de se envolver com homens por dinheiro. Desesperada por manter a relação com Selby, Lee se torna uma serial killer.
A intensidade com que a atriz Charlize Theron mergulha no papel de Lee lembra a entrega com que Nega Gizza se debruçou ao tema da prostituição e que resultou em seu rap ‘Prostituta’, lançado há alguns anos. A cantora, uma das poucas mulheres a ter destaque no universo do rap, foi atrás do tema depois que ouviu o relato de uma amiga que optou pela prostituição porque seu filho passava fome. Confrontada pela versão da amiga, leu livros a respeito do assunto, entrevistou prostitutas e lá pelas tantas, sentou-se e escreveu a letra do rap em primeira pessoa. Sua intenção foi a de denunciar uma mídia que leva à erotização precoce das crianças e a própria situação dessas mulheres. Seu clipe enfrentou dificuldades com a veiculação e Nega Gizza foi acusada de fazer apologia à prostituição.
É engraçado como o discurso sempre encontra meios de desmerecer trabalhos bons e ousados. A letra de ‘Prostituta’ pode ser comparada a versos dos Racionais, pela maneira como mostra a coisificação do ser humano ao se colocar, por exemplo, como um vídeo-game do cliente.
Em seu rap de quase sete minutos, Negga Gizza descreve um ambiente de favela que, cercada por “traficantes, viciados, psicopatas e parasitas”, confere-lhe um clima de desgraça e depressão. Nesse beco sem saída, a saída para muitos é sonhar com a aparição nos jornais, nas revistas, no mundo fantasioso da mídia, que vende a beleza como única forma de expressão digna. Talvez seja mais explícito hoje do que no final dos anos 80 – época em que a verdadeira Lee cometeu seus assassinatos – que o espetáculo venceu e isso explicaria um pouco porque sofremos tanta ansiedade em se ter essa aparição, ainda que deformada, pela mídia. Enquanto os favelados, na música de Gizza, querem aparecer na mídia para serem reconhecidos, Lee também quer ser descoberta pelos holofotes. Gizza entende que ascensão, hoje em dia, é “ser vista bem bonita na televisão”, distribuir autógrafos e dar entrevistas. Sua personagem quer sair numa capa de revista, andar de carro “feito gente” e não de camburão. Lee já deixou esses devaneios para trás, mas conheceu Selby e atrapalhadamente, já transformada pela sua história, tenta em vão dar a volta por cima. Os traços duros de seu rosto a denunciam, assim como seu jeito rude e malandro. Não há mais lugar para ela do outro lado da cidade.
Numa das cenas mais chocantes do filme, quando Lee está prestes a matar mais um cliente, ela pede para que ele tire as calças enquanto acende um cigarro e começa a contar das vezes em que foi estuprada na infância por um amigo do pai e que não entendia porque passou a apanhar deste quando lhe pediu ajuda e continuou sendo vítima dos abusos.
Apesar dos sonhos, a prostituta do rap de Nega Gizza sabe que “perdeu o rumo da vida”, escolheu o outro lado da história, ainda que por falta de opção. Quando Gizza diz que “das pragas sociais sou a pior”, está se auto-condenando, mas assume sua escolha e sabe que seu papel dali pra frente é vencer preconceitos: “sou puta assim, vou vivendo do meu jeito / prostituta atacante, vou driblando preconceito”, diz no refrão.
Lee não tem essa postura heróica, e isso torna o filme mais interessante. A relação que vive com Selby evidencia o quanto quer se agarrar a uma vida que nunca teve. No entanto, ela está amarrada ao seu passado e presa num sentimento desesperado e claustrofóbico que não lhe oferece alternativa e só lhe encaminha para o fundo do poço.
Aileen Wuornos foi executada em 2002, na Flórida, e ficou conhecida como a primeira serial killer mulher da história. A mídia fez de tudo para traçá-la como um monstro frio e sem remorsos.