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Bar do Alemão

Capa do primeiro disco do Gudin, com foto feita
no Bar do Alemão "daqueles tempos", em 1973
Eu não conhecia a história do Bar do Alemão, mas fiquei louca para voltar para lá quando soube que o Eduardo Gudin passou a ser um de seus donos no começo desse ano, ao lado do seu amigo Flávio. E ontem finalmente consegui arrastar alguém comigo, para apreciar uma noite de boa música, com a flautista Maicira, acompanhada por dois violões (um deles de 7 cordas), um pandeiro e muitas vozes. Rosa (Pixinguinha), Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro), Ingênuo (Pixinguinha e P.C. Pinheiro), As rosas não falam (Cartola), foram algumas das maravilhas tocadas ontem à noite.
O Bar do Alemão foi ponto de encontro entre músicos feras na década de 70, principalmente nas segundas feiras, quando eles estavam de folga do trampo noturno em outros bares e se reuniam pra “fazer um som”. Ele foi freqüentado por músicos de primeira linha, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, Paulo César Pinheiro, João de Barro, e outros. Esses são com certeza poucos dos nomes importantes da música brasileira que passaram por lá... Pelo jeito vou descobrir a história do bar aos poucos, engolindo a vergonha de não tê-la conhecido antes.
O Bar do Alemão é bem pequeno, mas aconchegante. Eu e a Nê passamos mais de uma hora em pé encostadas no minúsculo balcão esperando uma mesa ficar livre porque tínhamos chegado quase meia-noite, hora em que o bar estava bombando. Não achamos ruim, porque estávamos de frente para os músicos, conversando com alguns freqüentadores, que são todos visivelmente amantes da música e vão para o bar porque lá se respira música. Não sei porque, mas você se sente extremamente bem num lugar como o Bar do Alemão. Ele tem uma mesa redonda que fica ao lado da escada de madeira que dá para a parte de cima do bar, e é nessa mesa que ficam os músicos da noite. Só que os músicos da noite vivem recebendo os músicos que volta e meia aparecem com um violão nas costas, um cavaquinho, um acordeão, ou simplesmente uma voz bonita. Podem ser velhos amigos ou qualquer um com vontade de mostrar seu talento. Passe na frente dessa mesa e você pode ser surpreendido por um convite para sentar-se e acompanhar os músicos.
Uma hora resolvi procurar uma mesa no andar de cima quando o Gudin me convidou para sentar à sua mesa. Já tínhamos sido apresentados no andar de baixo, graças a um jornalista engraçadinho que soube por mim que eu era sua fã e quis fazer uma brincadeira. De repente, lá estava eu, sentada ao lado do Gudin, tendo conversas com ele sobre os seus discos, sabendo histórias sobre o último disco do Paulo César Pinheiro (Lamento do samba), sobre a voz exuberante da Márcia, no seu disco Ronda, sua interpretação de Chorei e Cordas de Aço (a mais bela interpretação dessa música que eu já ouvi), sobre os shows O importante é que a nossa emoção sobreviva e Tudo que mais nos uniu separou, sobre os Festivais da Record (que ele acompanhou ao vivo ou participou), sobre o discurso do Caetano no Tuca que ele viu da platéia, sobre a morte do Tom Jobim, sobre a arte de compor música, fazer arranjos para orquestra e sobre vários episódios do próprio Bar do Alemão. Como da vez em que a Clara Nunes apareceu por lá, e depois de ver inúmeros freqüentadores cantarolando suas canções, pôs-se a cantá-las para todos. Isso foi cerca de um mês antes dela morrer...
Ontem foi realmente uma noite incrível. Muito mais do que eu esperava. Você se sente em casa num lugar como o Bar do Alemão, onde todos parecem ser da mesma família, mesmo quando você sabe que na mesa ao lado está o Théo de Barros (compositor de Disparada), mesmo quando você está trocando idéia com aquele cara que até então era seu ídolo e agora é mais alguém que você conhece...
“Hoje foi a noite mais emocionante aqui do bar desde aqueles tempos”, comentou o Gudin, um pouco antes de irmos embora. E espero que haja mais noites como essa, porque eu pretendo voltar lá...
Escrito por
Maíra
às
12h40
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Tempos de tatu-bola

Priscila (minha irmã), vó Tininha, eu e vô Hilário
Escrito por
Maíra
às
15h20
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Vó Tininha

Vó Tininha, em foto que fez parte da minha exposição Retratos de Passagem, no ano passado
- Eu me casei com um português.
- Eu sei vó, sou sua neta, conheci o vô Hilário. Lembra de mim? Eu sou a Maíra, irmã da Priscila, a gente ia te visitar em Águas de Lindóia.
Aqueles dois olhos negros me encaravam confusos e pensativos. Não tenho idéia do que se passava pela sua cabeça. Fiquei umas três ou quatro horas com minha bisavó naquela tarde. Estava muito emocionada de revê-la, mas um tanto horrorizada com a vida que levava. “Os dias aqui não passam, ficam parados. A gente fica acordado, almoça, janta e dorme”, me contava a velhinha. E como estava velhinha. Está certo que eu não a via há anos, mas onde estava aquela senhora magrinha que morou anos sozinha depois do meu bisavô ter falecido, sem depender de ninguém? Há uns anos, foi para uma casa de repouso. Mas não deu, ela estava com 99 anos, meio esquecida, tomou um tombo, quebrou a bacia e esta madrugada foi embora de vez.
“Eu rezo baixinho, conto as ave-marias e os pais-nossos. Minha única distração é falar com Deus e mandar saúde para quem está doente”. Minha vó escondia o terço debaixo de sua manta, porque a senhora com quem dividia o quarto tinha problema na cabeça e vivia tomando-lhe as coisas que segurava. Foi assim com seus óculos, me contou. Foi assim com muitas outras coisas. E agora, depois de anos, encontrei minha bisa, largada sozinha num sofá, de costas para uma televisão.
Quando eu era bem pequena, nem sei direito com que idade – bem menos de 7, porque meu irmão devia estar longe de existir – , eu fui algumas vezes com minha irmã para Águas de Lindóia visitar meus bisavós. A gente passava uns dias por lá e nossa diversão era colecionar tatu-bola. Ficamos uma tarde toda recolhendo tatu-bola na terra e instalando-os na nova casinha: um berço de palha feito pra boneca. Demos nomes aos mais diferentes. Deixamos comidinha para eles (?), fechamos o berço e fomos dormir. No dia seguinte, todos tinham fugido pelas frestas do cesto. Foi a maior decepção.
Eu me lembro dos cômodos da casa da minha avó, principalmente da cozinha, onde minha vó fazia eu tomar água de ponta cabeça com uma faca atravessada na boca do copo pra parar com meus soluços. Eu me lembro dela falando “mangia che ti fa bene” enquanto me apontava uma sopa de letrinhas (eu já era fresca pra comida). E não me lembro de muito mais...
- Eu tive dois filhos, o Carlos e o Alcides.
- Eu sei vó, eu era neta do Seu Alcides. Eu sou filha do Alcides, lembra de mim? Aliás, minha irmã está grávida, a senhora vai ser avó de novo. Vai ser triavó!!

Vó Tininha (Vicenzina Soares), agosto de 2003
Escrito por
Maíra
às
09h05
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João Gilberto

Sou uma pessoa mais feliz do que ontem porque hoje adquiri o terceiro LP gravado pelo João Gilberto. Agora já tenho os três primeiros! Com esse novo brinquedinho, posso escutar os clássicos Samba da minha terra, Saudade da Bahia, Você e eu, Coisa mais linda, Insensatez e Este seu olhar, entre outros...
Encontrei-o num sebo fantástico que conheci na semana passada, perto do Vale do Anhangabaú, com discos muito bons, mas de preço muitas vezes azedo. Fiquei sentada uma meia hora, no porão do sebo, namorando os vinis de música brasileira. Entre eles, encontrei um da Maysa – Barquinho –, que marcou sua estréia na Columbra. Na contracapa, um texto seu dizia: “... não abandonei minha característica romântica, mas procurei acrescentar à ela um toque absolutamente moderno. Foi assim que consegui realizar o LP que sempre imaginei”. Esse toque “absolutamente moderno” nada mais era do que seu ingresso na Bossa Nova. O disco é recheado de músicas de Ronaldo Bôscoli, que também assina um texto na contracapa. Nunca ouvi o disco e fiquei curiosa, mas não o suficiente para pagar os 180 reias cobrados (!!).
Vi tanta coisa boa.. Outro LP que fiquei namorando foi um do Baden Powell com o Paulo César Pinheiro, por 40 reais. Quem sabe um dia eu encontro num sebo desses, entre uns discos ruins, meio esquecido ou ignorado. Quem sabe um dia...
Escrito por
Maíra
às
23h55
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