Aquela Menina
"Ganhou em um longínquo Natal, uma revista do Tico-Tico, que um amigo do seu pai lhe deu. Foi a maior alegria! Ainda hoje recorda com prazer o livro grande e cheio de gravuras, cada uma mais alegre e interessante que a outra. Ficava sentada na calçada da casa em que morava, pela manhã, entretida com as histórias e poesias, para ela, lindas de morrer. Ela não sabe que fim levou o livro - mas ainda tem saudades dele. Depois ganhou um boneco grande de celulóide, que uma senhora amiga lhe deu, talvez porque só tivesse filhos homens (2). A mãe dela fez duas roupas de cetim - uma azul e outra vermelha. Um tio, irmão da mãe, lhe deu uma caminha de ferro de desarmar. Só que o bendito boneco era muito grande para ela, a cama. Tem mais: aquela menina não tinha paciência de ficar sentada no chão brincando de bonecas. Filha única, não tinha com quem dividir a brincadeira. Afinal, quem a distraiu bastante, com muito carinho, foi um filho adotivo do avô paterno. Ele não o chamava de pai, pois fora adotado já grande, aos 10 anos, mas o velho tinha o maior amor por aquele filho da sua velhice, no que era correspondido cem por cento. Tornou-se o orientador de brinquedos daquela menina: empinar papagaio, jogar pedras sentados no chão, castanhas de caju (como se joga hoje bola de gude), pescar, brincar de artista de cinema com mais dois amiguinhos, ouvir histórias contadas pela mãe daquela menina, que diga-se de passagem o adorava como ao filho que não teve. E aí, a menina, hoje, com uma saudade imensa daquele tempo, diz como o poeta Ataulfo Alves - ela era feliz e não sabia. Foi-se o tempo... A felicidade é como o vento - vai e volta. Nós a apreciamos quando vem e quando vai, nós a chamamos para que não demore muito a voltar."
Texto escrito pela minha vó, sobre sua infância. Meus avós se conheceram bem jovens e meu avô conta que se apaixonou à primeira vista. Demorou anos até a amizade virar namoro.
Escrito por
Maíra
às
09h16
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