Ele chegou com um português todo engraçado, meio confuso. Estava num passeio a pé pelo bairro, com 15 reais em dinheiro no bolso, quando viu a loja de discos. - Sou músico e estou prrocurrando... como te explicarr... alguma coisa interressante... gosto muito de Ivan Lins, de Carrlinhos Brrown, da Simone também... Putz, não temos discos de nenhum deles na loja, pelo menos por enquanto, mas, como ele queria conhecer coisas novas, vamos lá. Comecei investigando cantores, sem saber exatamente como agradar o cara. Seu nome era Hanfred, ele era da Alemanha. Disse-me que tocava percussão e que gostava de jazz e bossa nova. Mostrei-lhe o Tom Jobim ao vivo em Minas, achou bonito, mas nem quis saber o preço. Mostrei-lhe Mônica Salmaso, Luciana Souza cantando em inglês, uns três discos da Olívia Hime e um da Olívia Byington cantando Tom e Vinícius. Muitos nem lhe comoviam, outros “bonito, mas não vou querrerr”. Até que, sem querer, esbarrei na Jane Duboc - Sweet Lady Jane. Tinha umas músicas do Ivan Lins gravadas (é ótimo quando dão crédito para as composições na contracapa do disco, ajuda a vender). Mostrei para ele e foi ele mesmo que notou. - Olha, é prrodzido pelo Ivan Lins. (...) Muito bonito (...) quanto custa? (...) Vou querrerr levarr, mas não agorra, estou sem dinheirro. Só tenho 15 reais no bolso, estava caminhando. Tudo bem, não tem problema algum. Quer ouvir mais? Mostrei-lhe Mauricio Carrilho, no disco Sexteto + 2, expliquei que se tratava de um importantíssimo compositor do choro, estilo brasileiro muito bem conhecido internacionalmente. - Sabe de uma coisa, tenho prroblema com o som da flauta. Quis mostrar Henrique Cazes e Marcello Gonçalves , em Pixinguinha de Bolso. - Não, não... Tudo bem, o que você quer de mim então? Com muita boa vontade, continuei minha empreitada... Um pouco de César Camargo Mariano, ele sozinho, ele com o Helio Delmiro, um pouco de samba: Nei Lopes, Cláudio Jorge, Zé da Guiomar... Não, não. Celso Viáfora, em parceria com o Ivan Lins. - Não, não erra isso que eu querria... Mostrei Cris Delano cantando Newton Mendonça. Ele foi parceiro do Jobim, expliquei. - Sim, tem uma voz muito bonita, mas não vou levarr. Rendido, nosso amigo Hanfred resolveu que seria melhor voltar outro dia mesmo, com dinheiro para comprar o disco da Jane. Disse que vinha no domingo, porque aí poderia conversar com o Mauro (melhor entendedor do assunto do que eu, expliquei a ele, quem sabe pudesse indicar outros discos). Porém, eis que hoje ele me aparece na loja, com tempo para ouvir mais uns discozinhos. E o Mauro não estava. Vamos lá então. Que tal um pouco de Mario Adnet – Para Gershwin e Jobim? Não. Ele mesmo puxou da pratileira uns três títulos. Entre eles, A Quatro Vozes, um grupo de quatro mulheres negras que têm um belíssimo trabalho. - Bonito. Mas falta alguma coisa. Não sei explicarr. Então tá, não saquei a sua. A minha é essa aqui: Comecei com Elizeth Cardoso e Raphael Rabello, em Todo o Sentimento. Decidi que melhor seria mostrar-lhe do que eu gostava e pronto. Escutou algumas faixas caladinho. Contei da influência dessa cantora na carreira da Elis, de quem ele já tinha ouvido falar. - É uma arrtista. (...) O violão também, bom. (...) Mas é semprre assim, lento? Tá, também temos Ary Amoroso – Elizeth Canta Ary Barroso. - Achei melhorr, mas não querro esse não. Maria Bethânia em Brasileirinho, em Cânticos, Preces, Súplicas. Não. João Ba. Não. Ceumar. Não. Bia Biagi. Siba. Trovadores do Vale. Não. Não . Não. Acho que foram mais de trinta cds que ele ouviu. Começamos a ficar íntimos. Eu já estava começando a gostar do cara. Passou um tiozinho vendendo sorvete e ele me pagou um. O meu era de graviola, o dele, de abacaxi. - Muito bom. Pelo menos do picolé ele gostou. - Acho que vou levarr só o da Jane Diboc mesmo. - Jane Duboc, corrigi. - Muito obrrigado pela atenção. Prróxima vez que vierr ao Brrasil., passo porr aqui. - Nada, foi um prazer. E eu ainda não entendi a do cara.
Escrito por
Maíra
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17h49
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Considerando que mês que vem começa o período das vacas magras, acabei de fazer uma loucura. Comprei ingressos pros shows da Teresa Cristina e Mônica Salmaso, no Sesc Pinheiros, e do Gudin com Francis Hime, no Sesc Vila Mariana. Esse fim-de-semana vai ser "fuderoso", como diriam dois amigos de Recife que estão em casa esta semana. Aliás, eles merecem um post especial, fica para outro dia...
A partir do dia 28, vou ter que largar meu delicioso trampo aqui na loja porque começo o trainee de fotojornalismo na Folha. Sei lá no que vai dar essa história, acredito que muita coisa vá mudar e não posso perder essa oportunidade. Só que são três meses, tempo integral, nenhuma remuneração. Ou seja, aquele dinheiro que eu vinha juntando vai ser para me sustentar. Mas... é isso aí, faz parte e eu vou tentar não ficar reclamando deste detalhe. Tenho mais é que estar feliz de ter condições de fazer o curso. É um investimento necessário, certo?
Escrito por
Maíra
às
11h17
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