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Sem dúvida, essa foi uma das melhores reportagens fotográficas que fiz no treinamento. Semana passada, eu e a Luísa_Brito, uma repórter do Cotidiano, acompanhamos uns pichadores agindo na madrugada.

Esses são os pichadores em ação atrás do MASP, no viaduto que passa por cima da Av. 9 de Julho, na madrugada do dia 1o de junho
A história começou com um telefonema que ela recebeu na redação de um deles, dizendo que o projeto Antipichação que a prefeitura está implantando na Cardeal Arcoverde de nada vai adiantar, que eles não têm intenção de parar de pichar a área, que por enquanto iriam para outras áreas da cidade e que, logo mais, quando a poeira baixasse, voltariam para a região de Pinheiros, por sinal, bairro onde moram.

Eles comentaram que já tinham usado terno e gravata para agir de madrugada da região da Paulista. "Os policiais até cumprimentavam", disseram.
O mais interessante da história é que marcamos um encontro com eles no point onde eles se encontram com outros pichadores e nos deparamos com três caras de 25 e 28 anos, e não moleques menores de idade. Os três, que fazem parte das turmas Os Bicho Vivo (OSBV), Túmulos e Teimosos (TMS), não só trabalham como são formados ou estão na faculdade. O primeiro contato que tivemos com eles foi numa noite chuvosa. Demos a idéia de acompanhá-los num dia em que fossem pichar a região, mas, por causa da chuva, adiamos o encontro.



A primeira pichação da noite, um pouco antes do viaduto
No final, foi até bom, porque a melhor personagem da história ainda estava por vir. Na semana seguinte, conhecemos uma menina de 22 anos, professora de uma escola particular e uma estadual de São Paulo e estudante de letras de uma faculdade particular do ABC. Logicamente, não fomos autorizados a dar o nome de ninguém.
Ela nos contou que começou a pichar aos 14 anos, época em que seus pais estavam se separando e ela, única filha a morar com eles, sentia-se sozinha. Disse-nos que sua adolescência foi de menina rebelde, mas que nunca deixou de ser boa aluna, pelo contrário, sempre tirou notas boas, gostava muito de ler.
“Encontrei nos meus amigos pichadores uma amizade que não tinha com ninguém”. A pichação começou para a professora, única remanescente da turma Piroboys, como um prazer e hoje faz parte de sua vida. É assim que ela definiu, para nós, sua relação com o hábito. “Não tenho intenção de parar, gosto do que faço”. Na verdade, ela parou por um ano, já que estava namorando um cara que não sabia de sua relação com a arte de escrever em muros. O mesmo acontece com seus colegas da faculdade e do trabalho: ninguém desconfia. Há cinco semanas, com o namoro rompido, reencontrou os amigos e voltou a pichar. No início, ia toda noite, para esquecer de tudo. Agora, conta que diminuiu o ritmo, por causa dos estudos.

nossa colega
Escrito por
Maíra
às
10h17
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Saiu nesse domingo (continuação)
A professora me impressionou muito porque, além de ter fala doce, ser bonita, era extremamente inteligente. O fato de ser mulher e ter esse perfil dificulta o flagrante de policiais. Quem confundiria uma menina de óculos, cabelos longos e bem cuidados, jeito elegante e dócil com um pichador? Talvez por isso tenha sido pega apenas uma vez, quando estava pichando um muro em frente ao Detran de Santo André com um amigo, e o máximo que tomou foi um sermão dos policiais, que acharam que ela era apenas a namorada dele. O lugar foi escolhido justamente por ser difícil de ser pichado.
Aliás, é isso que mais motiva os pichadores: quando mais difícil o acesso ao lugar pichado, mais ibope acaba tendo o pichador (mais comentado ele é).

nosso amigo posando ao lado da pichação recém-feita
Diante de todas as histórias que ouvi, fiquei com muita vontade de fazer um vídeo sobre esses caras. Afinal, não dá para encarar a pichação apenas como vandalismo. Alguma coisa eles estão querendo dizer. Se a gente não se indigna com a sujeira que os políticos deixam de propaganda pelas ruas em época de eleição, porque reclamar deles? Não digo só de propaganda política. Eu, pessoalmente, não gosto muito da linguagem publicitária dos dias de hoje. Outdoors que competem com a paisagem da cidade. Sou da opinião do João_Wainer, que publicou uma coluna na última página da última Superinteressante sobre pichação. Ela sim casa com o cenário da cidade. São Paulo é cinza. Nossa cidade é enorme e, conseqüentemente, uma das maiores expressões da desigualdade social do mundo. "A pichação é resultado do caos social", diz a professora. É uma forma de protesto, ainda que nem sempre eles usem palavras de ordem. É uma forma deles se retratarem, se colocarem nesse mundo que compete pela informação. Parece que todo mundo quer ser retratado, quer aparecer na televisão.
Além do mais, quem mora na periferia quase sempre tem que vir ao centro para garantir seu sustento. E aqui é bombardeado por essa linguagem, que também invade a área deles (lembro bem de uma foto do Iatã feita no Capão, com um outdoor todo iluminado de uma loira gostosa num comercial de cerveja, em contraste com o cenário mais humilde e distante da realidade daquela fotografia coloridona). A pichação é uma forma de devolver essas imposições.

Essa foi a foto que saiu no domingo
Durante a entrevista, eles nos contaram que chegam a escolher os lugares onde vão pichar pelo simples fato do ponto aparecer sempre na televisão ou nos jornais. Seria o caso de um posto médico onde os repórteres sempre dão matéria. Eles picham o muro do lugar e vêem seus nomes na televisão depois. Os amigos acham garça e picham em volta deles... O mesmo acontece com fotografias nos jornais. eles recortam e trocam como se fossem figurinhas... Colecionam mesmo.
E hoje, ironicamente, nossos entrevistados saíram na contracapa do Cotidiano. Está lá, no muro do Cemitério da Cardeal Arcoverde: OSBV e TMS. Não sei se os leitores notaram, mas a assinatura é deles.
Escrito por
Maíra
às
09h50
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do outro lado da mesa
nossos olhos nunca se cruzam ele diz que são muito fortes prefere não ferir ninguém com eles eu acho que tem medo de si mesmo, talvez na verdade, não me sinto capaz de decifrá-los apenas suponho, confesso alguns rabiscos mal feitos entre um copo e outro de cerveja ele me passa um desconforto do outro lado da mesa mas é incapaz de falar disso reclama da vida repete frases do dia anterior e eu me lembro daquela noite não sei dizer se aconteceu não importa mais desse lado da mesa me sinto ridícula desvio os olhos não sei mais se quero encará-los não sei mais se valem um poema
Escrito por
Maíra
às
21h45
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