Hoje é meu último dia de Fashion Week e de Folha. Agora só volto ao jornal para escanear alguns negativos e fazer algum freela ou outro, se me chamarem. O pessoal do treinamento peguntou para nós quem queria cobrir o Fashion Week. Eu aceitei, assim como outra meia dúzia (que nem apareceu). Vale a experiência, pensei. Só depois que eles notaram que o SPFW ia ser depois do término do treinamento. Tudo bem, eles disseram, podem ir mesmo assim. Mas hoje cortaram minhas asas. Eu não tenho câmera digital. Lá na fotografia disseram: “o treinamento acabou, hoje te emprestamos carro e filme, mas é o último dia”.
O pior é que esse lugar é um horror. Prefiro muito mais fazer uma pauta de incêndio, sem teto, acidente, morte e enchente do que essa coisa fake e vazia que é esse mundinho da moda. Verdadeira máquina de dinheiro que só contribui pra deixar mais meninas anoréxicas e bulímicas. Eu realmente não estou gostando de ter essa como minha última pauta. No entanto, estou aqui, tentado fazer alguma foto bonita e diferente para o meu portifa. Se render uma única foto boa, estou feliz.
Terça-feira cobri cinco desfiles. O primeiro foi o mais estúpido. Um bando de famosos que, vestidos com ternos em tons claros da Ricardo_Almeida, davam voltas num palco, subiam nele, se serviam de pro seco e ficavam bebendo, conversando e dando risada. Fabio_Assunção, Alexandre_Borges e Raul_Cortez eram alguns deles. Depois, pra coroar, alguns voltavam ao camarim e davam outra voltinha com seus filhos, que vestiam ternos em miniatura. Tamanha babaquice. Só faltavam servir champagne pras crianças.
O lado bom disso tudo é que, como o jornal tem dois fotógrafos aqui e não espera nada das minhas fotos, posso fazer o que eu quiser. A imagem que eu quiser. Isso significa que posso fugir do pit, chiqueiro dos fotógrafos, lugar para o qual tenho uma credencial, mas prefiro fugir, pois é a maior praga que inventaram para nós, profissionais da imagem. O que acontece é que esses eventos tem cada vez mais fotógrafo e cinegrafista cobrindo. Aí, pra ficar mais “fácil”, eles selecionam uma área onde a gente tem que ficar, bem de frente pro palco. Como o espaço é pequeno, tem sempre briga. “Sai da minha frente”, “Será que dá pra vc abaixar o seu tripé, camarada?”, e por aí vai... E a merda é que isso faz com que todos tenham o mesmo ângulo e façam sempre as mesmas fotos. Lógico que tem os que são melhores, mas ninguém quebra o formato “certo” das coberturas.
Um fotógrafo amigo meu me aconselhou: “Fuja dos fotógrafos. Sempre. Não fique onde eles estão, faça a sua leitura do evento”. Terça-feira demorei pra tentar fazer isso. Tentei fazer uma homenagem a Truffaut e fotografei só pernas. Não rendeu muito bem. Hoje vou tentar fazer outra coisa. Se der a louca, toco o horror neste lugar e tento desmascarar essa mentira toda.
Ah, estou de mau humor, dificilmente conseguirei falar bem de algo. Fui.