canto silencioso


É sábado, 2h30 da tarde, acordei há poucas horas. Faz uma semana que mudei a posição do meu computador para outro canto do quarto. Agora, tenho à minha esquerda uma janela com vista para a rua. É um trecho pequeno, uma esquina qualquer de Perdizes. Vejo o asfalto subindo para a rua de cima, riscado pelos pneus dos carros, o barulho de uma academia que fica em frente ao prédio, o movimento de uma casa árabe que fecha às onze horas da noite e o som de pessoas falando alto ou revirando o lixo deixado pelos moradores nas esquinas do cruzamento. Não chega a ser a vista do 1014, que fica no 10º andar de um prédio de frente para a Câmera Municipal, de onde se vê o asfalto do viaduto Maria Paula molhado do banho recente (nunca tinha visto bombeiros lavando as ruas de madrugada), de onde se vê o Vale do Anhangabaú se pronunciando pelas frestas da paisagem. Até a sensação de falta de segurança e os adesivos de putas colados nos orelhões são reconfortantes. É bom estar no centro. Não há nada melhor do que ver sua sombra projetada numa calçada cheirando a mijo durante um passeio pelo centro à noite. O som dos carros acelerando. Pessoas de alma deserta te cruzando pelas ruas. Luzes amarelas de postes manchando as sombras e sujeiras dos asfaltos. A solidão misturada de conforto e dúvidas. Nada melhor do que sentir a alma doer nesse canto da cidade. Nenhum outro lugar casaria tão bem com esses momentos de deserção.

Minha vista não tem tudo isso, mas tem me feito bem nesses últimos dias. Me parece que descobri a fórmula perfeita para trabalhar em casa. Funciona melhor à noite, quando abro a janela sem me preocupar com o reflexo na tela do computador. Eu coloco um som delicioso - como jazz, por exemplo - e tomo uma cerveja ou algo do tipo e aprecio a vista vez ou outra. Paro para pensar naquele caos externo, que vemos todos os dias. Aquela confusão toda, na cabeça das pessoas que cruzamos nos ônibus, que conhecemos no trabalho e dos amigos em geral. Paro para pensar nessa lógica toda, na correria dessa máquina que gira esmagando quem vive nela.

Bukowiski dizia que poucas pessoas o emocionavam, pois poucas lhe pareciam verdadeiras. Por isso, não tinha saco para o convívio humano. No entanto, freqüentava corridas de cavalo nem tanto pelo vício nas apostas, mas porque lá via uma miscelânea daqueles tipos insuportáveis da sociedade e era preciso engolir aquilo tudo de vez em quando. Por algum motivo, nos sentimos obrigados a isso.

Sempre tive vontade de entender esses tipos humanos. Qualquer um deles. Acho que por isso me apaixonei pela fotografia. Eu inventei uma desculpa para entrar na casa das pessoas e enchê-las de perguntas. E sempre saio cheia de respostas e com mais e mais dúvidas. Não me sinto capaz de resumir quem são elas. De alguma forma, sinto que não posso ignorar esses tipos, preciso conhecê-los, entendê-los. E o engraçado é que me apaixono a toda semana pelos mais diversos tipos. Nem estou falando de paixão amorosa. Me apaixonei por diversas crianças que fotografei para o especial de escola pública que fizemos no treinamento. Me apaixonei por alguns personagens que fotografei pro jornal também. Por muitos amigos, homens e mulheres. Acho que isso sempre acontece, quando acho que entendi alguma coisa que sinto ser verdadeira nessas pessoas. Elas me deram esse prazer e eu rio da graça que sinto.

De qualquer maneira, essa paixão vem sempre seguida de uma certeza de que tudo é meio previsível e não há nada a se fazer a respeito, porque tudo leva a crer sempre que não existe saída para esse caos, essa desordem toda. Parece uma postura derrotada, mas é mais alentador e saboroso do que o contrário. O passeio pelo centro, à noite, fica mais íntimo de você. Você não sabe o que está por vir, mas sabe que nada vai te arrancar essa certeza. Tudo que você tem a fazer é tentar se divertir sempre que puder. Um pouco de cerveja, vinho, incensos pela casa, música boa, uma boa vista para a paisagem notívaga da cidade e a companhia de amigos bem humorados, capazes de rir com você de todos eles, esses tipos estranhos que também somos nós. Só nos resta celebrar essa contradição toda com os amigos e tudo certo. Nada melhor do que sentir parte dessa falta de coerência.

 Escrito por Maíra às 14h57
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Esta foi publicada no jornal, em meados de maio, um pouco antes da Subprefeitura de Pinheiros dar início a projeto anti-pichação na região. Foi por causa desta matéria que aqueles pichadores (com quem eu e a repórter Luísa_Brito fizemos matéria) ligaram pra redação dizendo que o projeto não ia dar em nada, que eles iam voltar a pichar o lugar, era só questão de tempo. Por enquanto, pichariam lugares outros da cidade.



E aconteceu mesmo, não só acompanhamos eles numa madrugada pichando a cidade como eles foram contracapa do Cotidiano outro dia. Estavam lá as iniciais deles: "OSBV" e "TMS" (Os Boa Vida e Teimosos), no muro recém-pintado do cemitério da Cardeal.

Foto: Matuiti Mayezo



Esse casal mora na Cardeal desde 1961 e não pinta a fachada da casa há mais de três anos. Desistiram de lutar contra as pichações, só gastam dinheiro com tinta e mão-de-obra.



 Escrito por Maíra às 11h00
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Tenho passado a semana aqui na Folha escaneando os negativos de algumas fotos que fiz durante o treinamento. Enquanto edito meu material, vou me lembrando de cada pauta feita. Algumas muito divertidas, outras casca grossa, algumas inesquecíveis, outras que adoraria apagar da memória. Sempre restam histórias pra contar.

Esse dia, plena sexta-feira, eu fui cobrir o show do Eagle-Eye_Cherry. Nunca tinha ouvido falar nesse cara. Depois que ouvi as três primeiras músicas do show (só se pode fotografar as três primeiras músicas de shows internacionais) entendi o por quê. Estilinho Lenny Kravitz, sonzinho pop de merda, essa é a verdade. Uma molecada na platéia também não conhecia o cara. "Qual é mesmo a origem do cara?", ouvi alguém perguntar. Lógico que, mesmo depois de esperar quase duas horas até o show começar, não fiquei até o fim.

Eagle-Eye_Cherry no palco do Credicard Hall



 Escrito por Maíra às 20h08
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Foto: Marco_Aurelio_Olimpio
Essa foi quase de dentro do baú. Tempos de faculdade, bons amigos, primeiros passeios fotográficos... Essa foto foi feita em um trem da cidade, há mais ou menos três anos atrás.



 Escrito por Maíra às 12h58
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