Meses atrás, quando eu trampava na Lapa servindo pizza pra juntar uma grana, eu voltava toda madrugada do restaurante com uma van que dirigia boa parte dos garçons e funcionários até nossas casas. Na maioria das vezes, não havia outro destino melhor além da cama, depois de uma noite de correria pelo salão. Numa noite, no entanto, desceram mais duas meninas que trabalhavam comigo no ponto próximo à minha casa. Fomos para um bar, enchemos a cara e viemos para meu apê, onde continuamos a nos embriagar, a rir, contar nossas histórias, rolos, frustrações...
Lembro-me que, por um motivo qualquer, talvez a embriaguez, comecei a falar de um amigo que tinha conhecido há pouco tempo, mas de quem me sentia íntimo, pois ele sempre falava comigo de um jeito muito simples e sincero, por vezes de modo até patético e constrangedor. Mas sempre verdadeiro. E eu era feliz só de tê-lo conhecido, de ter acompanhado seu jeito atrapalhado de encarar a vida, enfrentar os pequenos desafios. Ele era um medroso, infeliz, moleque, só que, pôxa, não poderia ser mais encantador... Eu falava com tanta paixão, acredito que com brilho nos olhos, que minha amiga quis conhecê-lo.
Foi aí que eu, de novo, talvez pela embriaguez, entreguei-o nas mãos dela e fiquei meses sem vê-lo. No momento, fiquei empolgada porque vi que ela realmente estava interessada em conhecê-lo e é sempre bom poder falar sobre ele com quem o conhece, eu não pensei duas vezes. E ela foi se apaixonando por ele também. De cada história que ele lhe contava, ela me repetia alguns trechos comovida e perguntava se eu também não tinha achado aquela ou outra passagem linda...
Mas aí, lógico, saí da pizzaria, nunca mais vi a garota. Ela ficou com meu livro e eu não podia me aventurar a, em momentos de aperto emocional, folhear trechos como o daquele capítulo que termina com ele sendo grosso com a Camila e que é seguido por um capítulo em que ele fica mal por ter sido tão fraco e completamente idiota.
Bandini, hoje eu te recuperei. Prometo não te deixar partir novamente. Não te entrego mais nos braços de outra assim...
Hoje senti um alívio. Encontrei essa amiga na rua e descobri que estava no quarteirão onde ela morava. Você estava lá, esse tempo todo. Esperando por mim, talvez. Foi bom saber que ela gostou de você, mas muito melhor foi ter recuperado você para mim.
Escrito por
Maíra
às
23h03
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