Foto-Repórter
Essa semana a Agência Estado colocou no ar a sessão FotoRepórter em seu site. A idéia deles é permitir que qualquer cidadão do mundo, munido de uma câmera fotográfica digital, seja de baixa qualidade como a de celulares, seja de qualidade melhor, possa se cadastrar e enviar suas imagens do dia para a Agência. A idéia de abraçar esses repórteres-cidadãos pode parecer assustadora para os fotojornalistas profissionais, a princípio. Mas eu muito concordo com a posição daqueles que defendem que não teremos como impedir que, mais cedo ou mais tarde, cada vez mais os jornais dêem espaço para esse tipo de material "amador" de conteúdo impactante. Fotos de transeuntes já foram capa de jornais do mundo todo quando houve o atentado de Londres. Hoje em dia está todo mundo fotografando. A cada evento “midiático” é mais comum a cena dos bracinhos levantados com celulares apontando para o assunto em pauta. Foi assim no enterro do Papa, por exemplo. Lembro bem dessa cena também no último Fashion Week de São Paulo. Quem tá sempre cobrindo jornalismo vê isso todo dia. A visão pode ser otimista demais, mas acredito que nessa tendência mora uma oportunidade para transformar o fotojornalismo brasileiro em um ofício mais jornalístico mesmo. Se o fotógrafo não precisar mais se direcionar até o acidente de trânsito para fazer a foto mais repetitiva, idiota e simples do carro tombado e as vias engarrafadas, sobra mais tempo para que ele cumpra pautas mais relevantes. Fotojornalismo não se faz com fotos de trânsito ou de frio. Aliás, o fotojornalismo no Brasil é muito atrasado e vive uma crise que é dificil de contornar, que é a das fórmulas prontas. Confesso que não descobri, não faço idéia de como sair dessa sinuca. Acontece que as histórias se repetem e as imagens se repetem... E de forma tão óbvia que é difícil uma imagem chocar ou simplesmente “permanecer”, como a fotografia “pretende”. A outra crise dos grandes jornais é que se produz muita imagem ilustrativa e pouco fotojornalismo factual. Mais da metade das pautas dos jornais são de retratos de entrevistados... Ainda existem, contudo, fotojornalismo de verdade. James Natchwey é uma dessas pérolas que resistem à essa decadência. No entanto, é preciso não ser ingênuo, pois não existem tantas revistas como a Times e os grandes jornais são grandes empresas, com milhares de interesses internos. Ainda assim, há empresas e empresas nesse ramo... nem sempre seus interesses dão prioridade para a produção de um jornalismo honesto e em comprometimento ético com seu leitor. Se alguém souber me apontar alguma, sinta-se à vontade.... Acho que, em termos de fotografia, o Brasil nunca mais viveu nada parecido como a época auge do fotojornalismo da Revista Realidade. Antes teve a Revista Manchete, Cruzeiro... Mas depois, a fotografia foi perdendo espaço editorial e foi sendo negligenciada dentro das redações, ainda que comprovadamente atraísse leitores (talvez um público muito seleto, quem sabe?). Hoje em dia, a fotografia é muito custosa e as empresas estão sempre otimizando seus orçamentos... Talvez a iniciativa do Estadão dê um fôlego para seus profissionais, redirecione-os para outras pautas... quem sabe dê mais espaço para as grandes reportagens, que são cada vez mais raras nos jornais impressos. Ou talvez só piore a vida dos caras... Afinal, serão inúmeros “pauteiros” espalhados pela cidade e pelo mundo descobrindo notícias soltas por aí e em contato direto com a redação do jornal...
Escrito por
Maíra
às
01h07
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