Lo de Roberto

O tango é um capítulo a parte quando se fala de Buenos Aires. A cidade o respira e o reverencia. Quando conheci o bar Lo de Roberto, indicado por um amigo muito querido de São Paulo que também é músico, entendi o quanto o tango fazia parte da cultura argentina. Nesse bar, as pessoas que o freqüentam realmente escutam a música, páram para ouvir e apreciar o tango. O bar muito me lembrou o Alemão, por ser pequeno, abarrotado de gente, ter música ao vivo de excelente qualidade e clientes cativos, ambiente acolhedor, intimidade entre os freqüentadores. No entanto, essa relação do público com a música eu nunca tinha visto igual em bar algum. Em São Paulo é muito comum que os clientes conversem a noite toda e, por mais que gostem do som que está tocando, nunca o bar silencia durante um show completo. Não sei dizer se já vi acontecer aqui. Talvez com um bar mais vazio... Mas nunca com um bar cheio, depende muito do tipo de som...

Antes de Lo de Roberto isso era para mim inimaginável. Até mesmo os meus cliques incomodavam. Da terceira vez que fui lá fui repreendida pelo garçom do bar. O som da minha máquina atrapalhava os freqüentadores... Não pude falar nada. Quem sou eu para questionar isso? Fiz de tudo para me conter e fotografar pouco.



Minha primeira noite em Lo de Roberto foi um tanto quanto especial. Eu decidi ir sozinha para lá e a primeira pessoa com quem conversei foi Maneco, o garçom do bar. Ele foi logo me dizendo para eu ficar à vontade e me sentar na mesa redonda ao centro do bar, pois lá, apesar de estar ocupada por dois homens, tinha bastante espaço e o bar era de todos, eu não precisava ficar no balcão. A mesa redonda era logo em frente ao que seria o palco dos músicos, que logo mais estariam tocando tango de velha guarda. Desavergonhada, resolvi arriscar o palpite.


Quando vi, lá estava eu fazendo amizade com os homens que estavam à mesa e que - só depois fui descobrir - eram amigos dos músicos. Daqui a pouco estava eu conversando com os músicos também, um pouco antes do show começar... Depois começou aquele diálogo entre os violões... Uma loucura. Mas o mais inesperado foi quando deu o intervalo e os músicos foram para os fundos do bar para fumar, numa área que fica do lado de fora - não se pode fumar entro dos bares em Buenos Aires. Acabei puxando assunto sobre a música brasileira com um dos músicos, que começou a arranhar uns choros no violão e depois me pediu pra tocar algo. Não sei de onde tirei coragem para isso. Garanti para ele que meu violão era amador, que eu só era apaixonada por música, que só tocava dentro de casa... Mas ele insistiu tanto que toquei três músicas e cantei (doce de coco, chorei e refém da solidão). Garanto que foi o momento mais nervoso da viagem e um dos mais emocionantes também. Errei alguns trechos, mas quando repetia a segunda parte conseguia tocar a música inteira. Parece que eles curtiram, se amarraram nos arranjos harmônicos feitos pelo Babaloo, que foi meu professor. Deixei bem claro que nada era da minha autoria...


Também foi em Lo de Roberto que fiz amizades inesperadas com pessoas lindas.

E, claro, tomei muito vinho...
Escrito por
Maíra
às
00h17
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